Todo mundo precisa de um herói.
E todo herói é, por si, uma celebridade midiática construída com o imaginário coletivo e com as necessidades de uma determinada época. Seu papel social é resolver questões políticas, sociais, econômicas, pandêmicas, diplomáticas… e, como não poderia deixar de ser, de consumo.
Para cada tempo, um herói diferente com poderes distintos para problemas pontuais. Pode ser a criminalidade, a injustiça, a discriminação, a violência, a guerra, a pobreza, as forças do mal ou os inimigos invisíveis.
Uns usam a energia bruta, outros conversam com os animais, ou são elásticos, de aço, telecinéticos, clonados, invencíveis. O importante é que despertem nos homens de “espírito” a tal da confiança.
Lendas urbanas ou constructos da ficção, este repertório conceitual vem das mais diversas mitologias, canais criados pela própria humanidade tentar entender o seu entorno, os fenômenos da natureza, os seus similares e o seu destino. São os poderes sobrenaturais de uma milenar cultura de heróis: Prometeu e Odisseu, entre outros, na Grécia. Souw, na Oceania. Bhima, na Índia. E mais Aeneas, Beowulf, Chulainn, Finn…
“Agentes de mudança”, como são chamados, estes seres são dotados de capacidades extraordinárias para trazer ordem nas sociedades onde atuam, buscando mantê-las livres de quaisquer espécies de perturbações. No desequilíbrio de lutas cartesianas e moralistas entre o bem e o mal, representam a esperança da harmonia, da segurança e da paz.
Nas garatujas das paredes das cavernas, nos contos da tradição oral, nos papiros, nos livros impressos, nas fotos, no rádio, no cinema, na TV, na web, nos kindles da vida estes heróis são concebidos qual espelhos de contextos, com perfil psicológico, com repertório filosófico, com aparatos tecnológicos intimamente associados a uma certa era — seus medos e seus sonhos.
Para além de Hollywood, aqui nesta vida que se vive com geleiras se desprendendo dos pólos, com tsunamis e terremotos, com gripes H1N1 e outras endemias, a pancósmica mídia exala em seus poros multiplatafórmicos: “O mundo vai acabar e você é o responsável”. “Faça a sua parte”.
Aparecem em todos os cantos os gráficos de impactos, por vezes herméticos, outras tantas lacônicos, mas muito bem justificados: sociedade + economia + ecologia = equilíbrio; participação social + iniciativas politicamente corretas = investimentos sustentáveis; pegada ambiental + neutralização de carbono = redução de camada de ozônio…
Então surgem os imperativos de atitude: feche bem a torneira, faça xixi no chuveiro, não gaste energia elétrica, recicle nos lixos coloridos, reutilize as sacolas plásticas, as latinhas de alumínio, as baterias de celular, os cartuchos de tinta…
Depois, os imperativos de consumo consciente: compre papel reciclado tal, use as camisetas de algodão X, consuma PET reciclado Z…
Aiai…
Quem virá para salvar este mundo?
Um pássaro? Um avião?
Não.
Surpresa!
O Dr. Sustentável é você.
E agora?
Marina Pechlivanis